quinta-feira, 7 de abril de 2011

A menina que roubava livros,



Acabo de perceber que, se algum dia tive pretensões como crítico literário, foram grandes ilusões. Um crítico precisa ser mais racional e analítico, já eu, sou facilmente conquistado por uma simples história diferente, porém profunda.
Mas também, quando a morte conta uma história, você deve parar para ler.
Liesel Meminger é a menina que nossa narradora — a morte — encontrou três vezes. A garotinha conseguiu tapeá-la nas três.

Impressionada, a ceifadora de almas decide nos contar sua trajetória, pois, como ela mesma diz, em seu ramo de trabalho, o único dom que lhe salva é a distração. Ela mantém sua sanidade.

Apresentando
A Alemanha nazista.
Uma menina com um irmão morto.
Um livro preto com letras prateadas.
Neve.
Dois pais de criação.
A mulher com punhos de ferro.
O enrolador de cigarros.
Um judeu escondido no porão.
Palavras…
…e bombas.

. Eis um pequeno fato .
Você vai morrer.

A pergunta é: qual será a cor de tudo nesse momento em que eu chegar para buscar você? Que dirá o céu?

. Uma pequena teoria .
As pessoas só observam as cores do dia no começo e no fim,
mas, para mim, está muito claro que o dia se funde através de uma multidão
de matizes e entonações a cada momento que passa.
Uma só hora pode constituir em milhares
de cores diferentes — amarelos céreos, azuis borrifados de nuvens. Escuridões enevoadas.
No meu ramo de atividade, faço questão de notá-los.

Primeiro aparece uma coisa branca. Do tipo ofuscante. É muito provável que alguns de vocês achem que o branco não é realmente uma cor, e todo esse tipo batido de absurdo. O branco é sem dúvida uma cor e, pessoalmente, acho que você não vai querer discutir comigo.

. Um anúncio tranqüilizador .
Por favor, mantenha a calma, apesar da ameaça anterior.
Sou só garganta…
Não sou violenta.
Não sou maldosa.
Sou só um resultado

Ei, acorde! Ela não está atrás de você, ela sequer procura você. Ela só chega quando é tarde demais. E faz o seu trabalho.

Como eu falei, parece muito mais humano passar as sensações que um livro possa trazer.

Alegria.
Ternura.
Tristeza.
Euforismo.
Solidão.
Orgulho.
Medo…
…e a Morte.

Foi nos livros que Liesel viu a oportunidade de fugir daquilo tudo que a perseguia. Ela esquecia do irmão morto com um olho aberto, no chão do vagão do trem.

Ensinaram-na a ler. Um certo enrolador de cigarros e um acordeonista.

No abrigo, durante os bombardeios, ela sacudia as palavras para manter todos mais calmos. E longe de mim. Era a sacudidora de palavras.

Até que um dia ela escreveu seu próprio livro.
Até que um dia as sirenes não tocaram para avisar sobre as bombas.
Até que um dia a rua Himmel foi devastada.
Até que um dia só sobrou a menina que roubava livros nos escombros de um porão raso demais para suportar.

Uma sobrevivente.
Um acordeão quebrado.
Um beijo tarde demais.
Um livro perdido e devolvido em tempo.

Venha comigo, quero lhe contar uma história. Vou lhe mostrar uma coisa.

. A nota final de sua narradora . – Os seres humanos me assombram.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Desistir;

E então, é isso que você pensou pra sua vida? Tentar, tentar e tentar pra no final desistir? Foi isso que você esperou de você mesmo?
Sinceramente, me faça o favor de parar com seu drama todo e erguer a cabeça. Vai continuar no chão depois de cair? Achou mesmo que nunca ia passar por isso? Me desculpe mas você esta completamente enganado.
Nem tudo que reluz é ouro, praticamente todos os dias você vai encontrar um novo desafio. Só cabe a você agora decidir se vai desistir no primeiro obstáculo ou continuar nessa.
E me faça um favor, antes de tremer as pernas pelo inconquistável e apagar as luzes do mundo por um único brilho falso, olhe dentro de você e pergunte: estupidez, masoquismo ou medo de viver de verdade?

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Me dê algo a mais

Completo o copo com conhaque, acendo mais um cigarro, e me ajeito no sofá.
Entre uma tragada e um gole, sinto meus olhos arderem.
Às vezes a impressão que tenho é a de que vou explodir e virar milhares de moléculas, sem importância alguma.
Às vezes eu não tenho a mínima vontade de seguir em frente.
E na maioria dessas vezes, é porque eu não encontro um motivo, uma razão para continuar.
Me desculpe se a sua idéia de felicidade é medíocre, a minha não é.
Felicidade pra mim não é encontrar o amor da minha vida, e viver feliz para sempre lavando roupa e cuidando dos filhos.
Eu quero um veneno anti-monotonia (como já dizia o poeta), quero mudanças, quero diferenças, quero espetáculos, quero viver, quero morrer, quero ressuscitar.
Quero fechar os olhos, e enquanto o filme da minha vida passar na minha mente, eu ter certeza de que valeu a pena. De que todos os sacrifícios serviram para algo, de que não foi em vão, de que eu venci, e da maneira errada, pelo caminho mais difícil, escolhendo o lado mais complicado.
E não importa se daqui a alguns anos eu continuar na mesma situação financeira, não importa se eu nunca puder conhecer a tão adorada Inglaterra. Eu só preciso de musica e um motivo pra continuar.
Não quero me perder na ilusão de uma felicidade inventada.
Nada nunca vai ser perfeito ou fácil, aceite isso e me dê mais um cigarro e mais um gole, por favor.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Otherside,

Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem de minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do Zodíaco.
Deixe que mergulhe no mais profundo oceano,ou flutue na mais alta nuvem...

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

É Fá, Fá maior...

"Hey Jude, don't make it bad, take a sad song and make it better"
-É Fá, Fá maior.
-O que?
-Você tocou errado, é Fá maior.
-Ah sim, eu estava distraído, nem tinha te visto aí.
-Eu sei, você nunca vê, mas... eu sempre te escuto.
-É? Não achei que alguém se importasse com o que eu toco, mas se você sempre escuta, acho que gosta. Certo?
-Gosto da sua voz.
-Legal. Mas, como eu nunca te vi por aqui?
-Eu já disse, você nunca me vê. Está tão perdido nas suas próprias dúvidas, que não percebe o que está a sua volta.
-Acho que você sabe mais sobre mim do que eu mesmo.
-Você se engana, sei tanto de você quanto você sabe de mim: nada.
-Mas...
-Mas eu te observo, e então deduzo algumas coisas, que pelo jeito estão certas.
-É, realmente estão certas. Mas qual o seu interesse em observar um desconhecido que fica tocando violão em uma praça?
-Eu sempre pensei que me apaixonaria por um desconhecido. E eu estava certa, o único interesse em te observar é que quando te olhei sabia que você era o cara que iria trazer todos os problemas que eu tenho fugido todo esse tempo.
-Problemas, então você acha que eu vou te trazer problemas?
-Não acho, tenho certeza. Você poderia continuar tocando? Eu amo sua voz nessa música, e não esquece: é Fá maior.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Ainda vejo eles,



Há quanto tempo eu estava ali sentada? Não sei dizer. Não sei dizer ao menos que horas são agora.
Há tempo joguei meu relógio fora, joguei fora minhas antigas roupas, e tudo que me prendia ao passado.
Os discos, os livros, e tudo mais que fazia parte de mim.
Doeu, doeu muito abrir mão de tudo o que eu era, de tudo o que eu amava, de tudo o que era meu chão.
E agora? Estou aqui, sentada na sarjeta, com as gotas da chuva molhando o meu rosto, e libertando o último resquício do meu passado que ainda sobrevive em mim.
Eu vi pernas indo e vindo a noite inteira, algumas paravam, observavam e iam embora. Aqui ninguém pára por muito tempo, aqui ninguém tem tempo.
O tempo possui as pessoas, e não o contrário. A vida possui as pessoas. A cidade possui as pessoas.
As pessoas não são donas de si, elas se venderam para o tempo, para a vida, para a cidade, para alguém.
Almas vendidas, que vão e vem a cada minuto.
Agora não mais, agora a cidade parou. A cidade dormiu.
Sempre tem alguma alma que ainda perambula por aqui, mas essas são as que não se venderam, as que se mantiveram firme, e agora estão à procura de alguma sarjeta para serem acolhidas, e assim como eu, passarem a noite vendo pernas indo e vindo, carregando almas que não param, não te enxergam, apenas observam alguma vezes.
Agora eu me deito, porque o cansaço me venceu. Estou esperando que algo venha e me tire daqui.
E não leia errado, eu quero algo, e não alguém.
Cansei.
O mundo me cansou, o passado me cansou, essas almas me cansaram.
Por favor, algo, me tire daqui, me leve para o céu, ou para o inferno, mas me tire daqui.

Petra in the sky with diamonds

Essa sede de aventura que invade todos os meus dias, futuramente me trará cansaço de tanto batalhar, batalhar e alcançar. Então eu me fecharei para dentro de mim mesma, como aconteceu num passado não tão distante assim. Eu espero que desta vez eu possa dizer com toda convicção de alguém que aprendeu algo: valeu a pena. Este casulo que nós vivemos não aprisiona lagartas que futuramente serão borboletas, abriga borboletas que estão prontas para voar mas tem medo da queda livre. Tem medo do desconhecido; eu não, eu quero o desconhecido, como um órfão que procura os pais... Não quero ser parte do que as pessoas atualmente chamam de humanidade. Tenho em mim todos os sonhos do mundo.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Um cobertor de palavras para aquecer um coração,

Se formos ver, não lembramos tudo - exatamente tudo - que acontece no decorrer do dia a dia, lembramos de coisas pequenas, às vezes não sabemos porque, mas de algum modo lembramos daquilo. Lá no fundo, lá no subconsciente, te faz bem. Também acontece algo chamado apego, quando esse pequeno fato do dia envolve alguém. Apego envolve um monte de pequenos grandes sentimentos que dançam na sua cabeça, no seu coração e no seu estômago até. É complicado como o apego toma conta de nós. Quando você vê, esta lá, tem alguém que te arranca um suspiro involuntário. Talvez exista alguma razão por algo ficar na memória. E mesmo sem explicação certa, vale a pena. Só pra você sentir saudade. Não uma saudade que machuca. Aquela saudade de só sentir aquilo novamente.

Viu como um momento já dá um cobertor de palavras e envolve o coração?

domingo, 3 de outubro de 2010

Dizem que a vida passa em flashes quando ela está por um fio. Ou um gatilho, ou qualquer coisa curta que dispara com pouca pressão. Nunca vi esses flashes, nem os pedaços de filme passando, os momentos importantes, nem nada disso. No caso do gatilho, minha cabeça continuou a mesma, com a diferença que estava prestes a ser explodida. Explodida por alguma palavra errada, por um segundo a mais de descuido, por qualquer movimento brusco, ou olhar atravessado. Você passa por isso todo dia, com a arma invisível na mão de todo mundo em volta, sua cabeça explodindo invisivelmente na cabeça de todo mundo em volta. Essas coisas acontecem.
Também acontece, as vezes, com uma arma de verdade, na sua cabeça de verdade, que irá explodir de verdade. E tudo que eu pensava não eram os flashes, nem os filmes, nem na minha infância - eu só pensava no dedo prensado atrás do gatilho, no espasmo involuntário que faria aquela coisa disparar. Não na minha cabeça. Na cabeça dos outros. Minha cabeça que se exploda. Acho que nunca tive aquele senso de auto-preservação na presença de outros. Heróico ou suicida, tem sido assim. Deveria ser uma forma muito estúpida de morrer, assim numa segunda-feira, por volta das oito da noite na mão de um vagabundo qualquer que aparece na calçada. Virar estatística nunca foi meu plano de vida. A cidade está infestada. Somos todos pervertidos, mendigos, ladrões, viciados, pedófilos, maníacos, charlatões, vagabundos, burocratas, contrabandistas, violadores, interesseiros, adúlteros, doentes, assassinos, desistentes. Convulsionando em objetivos dos quais não temos muita idéia do que se tratam, lutando por comida e aluguel, esperando um dia que jamais vai chegar, por pessoas que jamais vão existir, e tentando ser alguém que jamais seremos. Estamos todos no mesmo barco e o barco está cheio até a boca, transbordando todo mundo, e a hora de todo mundo vai chegar. Isso nao é o fim do mundo, porque o mundo é assim desde o começo até o fim. Reze para o seu Deus, chegue cedo no trabalho, pague seu aluguel, seja um cidadão de bem e quem sabe você esteja por um triz numa segunda-feira qualquer com um cano de aço roçando na sua blusa de lã.
Você sobrevive. O dia acaba e sua cabeça irá continuar explodindo por aí, na cabeça dos outros.
Isso enquanto você tiver uma cabeça, é claro.